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Artigo
Futuro vermelho
Primeiro diretor brasileiro a usar a Red One apresenta suas impressões sobre a câmera. Para ele “a qualidade da câmera e as vantagens que o formato traz para o processo de produção são inquestionáveis”.
A nova câmera RED estava ainda em fase de desenvolvimento quando eu primeiro recebi informações a seu respeito em dezembro de 2006. Intrigava-me intensamente a idéia de que uma câmera de cinema digital viesse a abalar a supremacia da película.
Nos meses seguintes, pesquisei o máximo que pude antes de fazer a reserva de compra, o que na verdade representava uma espécie de depósito percentual do valor do equipamento, e que me garantiria receber a 1040a câmera fabricada.
Aguardei mais de um ano para receber a câmera e, durante esse período de espera, me informava dos avances técnicos de produção pelo fórum de internet criado pelos próprios diretores da empresa (www.reduser.com). Nesse espaço virtual, inúmeras questões e sugestões eram levantadas pelos reservistas e, para minha surpresa, eram rapidamente respondidas atenciosamente e incorporadas pela equipe de engenheiros e empresários responsáveis.
Alguns renomados cineastas receberam protótipos da câmera para realizarem seus filmes enquanto testavam o equipamento. O primeiro deles foi o diretor Peter Jackson (Senhor dos Anéis e King Kong), que utilizou a câmera para realizar o curta metragem “Crossing the Line” na Nova Zelândia. O trailer do curta foi rapidamente colocado no fórum de Internet da RED para o deleite dos futuros donos da câmera. A qualidade cinematográfica era mesmo surpreendente, se assemelhava muito à qualidade da película, não havia resquícios do formato de vídeo nas imagens, era o verdadeiro cinema digital.
O que faz com que a imagem dessa câmera seja tão cinematográfica? A primeira qualidade é o tamanho de cada quadro (ou frame): 4K de informação, aproximadamente 4 vezes maior que um quadro de HD. A segunda característica é o fato de que se usa lentes ‘primes’ de cinema, ou seja, quando se compra uma câmera RED, compra-se o corpo da câmera e seus acessórios. As lentes usadas podem ser desde simples lentes de câmera fotográficas às mais perfeitas ópticas cinematográficas para 35mm (Cooke, Zeiss). Um terceiro fator que define a qualidade da RED é que o negativo digital captado pela câmera é em formato ‘RAW’ (o mesmo utilizado em câmeras digitais de fotografia profissional), o que possibilita uma enorme flexibilidade de manipulação em pós-produção.
Meses após a pequena produção de Jackson, o diretor Steven Soderberg (Onze Homens e Um Segredo, Traffic, entre outros) decidiu embarcar nas experiências da RED de cabeça. Ele recebeu duas câmeras para rodar “Che”. Isso foi uma aposta e tanto, considerando que as câmeras ainda não se encontravam em um estágio final de produção e o projeto “Che” tinha um forte caráter comercial. A aposta na inovadora câmera lhe rendeu grande repercussão, o filme foi lançado com muito sucesso no último Festival de Cannes com direito a prêmio de melhor ator para Benicio Del Toro. Daí em diante, uma multidão passou a se interessar pela câmera.
Eu seguia aguardando ansioso a chegada da minha câmera. Já havia escrito um roteiro de curta escrito e apenas esperava receber a RED para rodá-lo, o que finalmente veio a acontecer em abril de 2008. A produção do curta “UM” foi imediatamente iniciada em Nova York, onde vivi uma temporada. Foram três dias de filmagens, nos quais a câmera portou-se de forma espetacular. As pessoas paravam na rua para espiar a RED em ação.
A principal lição que a câmera deu a mim e ao fotógrafo David Barkan (brasileiro radicado em Nova York) foi a seguinte: a RED tem que ser tratada como uma câmera de película. A iluminação deve ser feita com os mesmos cuidados e requintes. A RED não faz mágica e, sim, oferece uma nova forma de se pintar com a luz, criando um cinema comparado a produção em 35mm.
Logo após o término da produção de “UM” em maio de 2008, cheguei ao Rio com a RED. O Roberto Faissal (da Cinemar), que já havia entrado nessa aventura como meu sócio, e eu havíamos decidido participar da semana do ABC apresentando a câmera para o mercado brasileiro. Além de apresentarmos a câmera e seus acessórios, apresentamos também planos finalizados do curta que eu havia rodado semana antes.
A câmera atraiu muito interesse e despertou a curiosidade de diversos produtores, fotógrafos e diretores, todos impressionados com a qualidade da imagem e a praticidade do processo de pós-produção. Em seguida à semana ABC, a câmera foi para São Paulo para rodar o primeiro longa metragem no Brasil, “Condomínio Jaqueline”, dirigido por Roberto Moreira, com produção de Geórgia Costa Araujo e fotografia de Marcelo Trotta. Depois, já de volta ao Rio, rodou diversos comerciais produzidos por grandes produtoras como a HungryMan e a Conspiração Filmes, entre outras.
Durante esse período inicial da RED no Brasil, eu consegui finalizar a cópia off-line do meu filme para inscrevê-lo no Festival do Rio, que aconteceria em Setembro. No mês de Agosto, recebi a confirmação de que participaria do Festival, o que me trouxe uma enorme ansiedade, uma mistura de felicidade pela estréia no Rio e um medo enorme de exibir o filme em um formato não tão familiar para o cinema, que é o digital.
Com a supervisão de Bernardo Varela, que já possuía experiência anterior com o formato de projeção digital via RAIN Network, iniciamos uma série de testes. Um fator que agravava minhas preocupações era que o meu filme foi feito para ser exibido em cinemascope e não no formato digital standard (16X9). Depois de inúmeros testes e estudos, chegamos a uma cópia final. Com o arquivo RAIN em mãos, fui ao CineOdeon, onde aconteceria a mostra competitiva do Festival do Rio, para testar com o projecionista. A primeira informação que recebi, ao chegar, foi de que não seria possível apresentar o filme em cinemascope, mas depois de conversas e testes vimos que tudo estava dentro dos conformes e a qualidade técnica da projeção foi surpreendente. As características da projeção eram muito similares às de 35mm. O único elemento inexistente são os grãos próprios da película.
Todo o processo de produção e pós-produção do meu filme serviu para reforçar as vantagens do cinema digital. A economia por não comprar negativos, revelar, ou telecinar foi significativa e o resultado final foi realmente além das expectativas. O curta “Um” teve sua estréia internacional em janeiro de 2009 no Festival Internacional de Rotterdam.
Muitas novidades já foram anunciadas pela RED para o ano de 2009: o lançamento da EPIC, uma câmera com capacidade de resolução (6K) ainda maior que a RED, e da SCARLET, uma câmera de bolso que rodará em 3K. Em todo o mundo, tanto no Brasil quanto em Hollywood, a comunidade cinematográfica segue com a produção de diversos projetos com a RED: a super-produção hollywoodiana “Knowing” estrelando Nicolas Cage, a série de televisão “Som e Fúria” (produção O2 e direção de Fernando Meirelles), o novo longa “Tempo de Paz” de Daniel Filho, e o novo projeto “Anticristo” do polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier.
A qualidade da câmera e as vantagens que o formato traz para o processo de produção são inquestionáveis. Para o cinema, o futuro é vermelho!
- Ricardo Mehedff é diretor, produtor e montador. Formado em Cinema pela George Washington University, seus filmes participaram de mais de 80 festivais no Brasil e no exterior, incluindo os festivais de Roterdã, Berlim, Oberhausen, Nova York, Los Angeles, Havana, Guadalajara, Rio e São Paulo. Atualmente, prepara a filmagem de "Posto 4", seu primeiro longa como diretor.
www.ricardomehedff.com
www.vfilmes.com
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